Artigo – O teatro de rua presente na cultura do Espírito Santo

Personagem Balandrot, interpretado por Duílio Kuster, se preparando para dormir em “O pastelão e a torta”.

Publicado originalmente no AT 2, pág. 12, jornal A Tribuna, 17 nov. 2012.

A presença de seis grupos que trabalham com teatro de rua dentro da programação do recém-lançado projeto Cultura Presente, da Secretaria de Cultura do Estado, atesta a importância que o referido campo artístico vem adquirindo no Espírito Santo. Apesar de existirem registros demonstrando que a atividade já era exercida aqui há tempos atrás, é inegável que, desde os anos 2000, a quantidade de coletivos teatrais que possuem nas apresentações de rua uma de suas diretrizes de trabalho alcançou uma proporção nunca vista anteriormente. Cumpre destacar os trabalhos desenvolvidos por grupos como o Z de Teatro; Repertório; Vira-Lata; Teatro da Barra; Gota, Pó e Poeira; Circo Teatro Capixaba; Rerigtiba e Folgazões, companhia essa da qual faço parte.

Na Folgazões, apesar de possuirmos espetáculos montados para o chamado palco italiano, é inegável que o teatro de rua é o nosso gênero teatral de predileção. A rua é um espaço democrático por natureza, abrigando indivíduos com distintos níveis econômicos, etários, intelectuais e culturais. Os espetáculos artísticos que nela ocorrem possibilitam colocar lado a lado, numa mesma roda, habitantes de mansões e pessoas sem moradia, idosos e crianças, professores universitários e analfabetos, evangélicos e boêmios.

É preciso, portanto, e acima de tudo, uma linguagem que seja ampla o bastante para tocar um público tão vasto e heterogêneo. Público esse que, diga-se de passagem, pode entediar-se a qualquer momento e seguir seu caminho, uma vez que não está preso dentro de um teatro fechado. Para alcançar tal amplitude de comunicação, faz-se necessária uma predisposição para escutar e compreender os mais variados setores da população, escuta que só é conseguida se for acompanhada por um imenso sentimento de generosidade por parte dos artistas. Se essa linguagem ampliada é obtida, por alguns minutos que seja, pessoas as mais diferentes possíveis, que talvez nunca pudessem vir a conversar um dia, passam a pertencer a um único coletivo e a ter, pelo menos, um assunto em comum: a apresentação à qual acabaram de assistir.

Além disso, para aqueles que pensam que o aspecto de universalidade necessário ao teatro de rua possa gerar uma obra mais “frágil” ou “solta” do que aquela produzida para o palco, é preciso registrar que, na maior parte das vezes, o que ocorre é justamente o contrário. Por estar aberto a qualquer tipo de interferência externa, o teatro de rua acaba por exigir muito mais do ator. Seja de sua capacidade física de fazer-se presente e despertar a atenção, como de sua habilidade de improvisar frente a acontecimentos inesperados que possam vir a ocorrer, habilidades essas que, quando bem executadas pelos artistas, conferem ao teatro de rua o aspecto de uma obra de arte incrivelmente viva e pulsante.

Duílio Kuster é ator, membro da Folgazões Companhia de Artes Cênicas.

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