Teatro e Estado no Espírito Santo*

Após algumas décadas de relativo marasmo, período marcado por produções infantis esparsas, o teatro capixaba parece estar conhecendo um novo momento, com os grupos que surgiram com a chegada do novo milênio e que optaram por manterem um trabalho coletivo e continuado, ancorados em espaços de criação e apresentação próprios. Por mais paradoxal que seja, historicamente, o momento em que as artes cênicas em nosso estado mais ganharam destaque em nível local e nacional foi durante a Ditadura Militar (1964-1985), período marcado também pelo cerceamento das liberdades individuais e coletivas, no qual o Espírito Santo foi governado por governadores biônicos indicados pelo poder central.

Em especial, de 1970 a 1976, o Estado, por meio da criação da Fundação Cultural do Espírito Santo, desenvolveu uma série de ações em prol da atividade teatral local, como a criação de importantes espaços de apresentação (Teatro Estúdio e Teatro de Arena do Mercado da Capixaba); a reforma do Teatro Carlos Gomes – que se encontrava fechado há anos -; a criação e manutenção de um grupo de teatro oficial; a importação de espetáculos do Rio de Janeiro e São Paulo para comporem a temporada capixaba e o apoio à realização de festivais de teatro, o que contribuiu para o surgimento de novos grupos e o aparecimento de novos artistas. A partir de 1977, ocorreu uma redução substancial nas verbas que eram destinadas à atividade cênica capixaba, comprometendo as ações que até então vinham sendo desenvolvidas e que, muito provavelmente, explique a situação da nossa atividade teatral a partir da década de 1980.

Tal constatação nos suscita uma série de dúvidas sobre o interesse dos governadores biônicos capixabas com a atividade teatral do Espírito Santo, bem como nos permite algumas respostas hipotéticas: o desejo de controlar a criação artística estadual; de conquistar a simpatia da população para um governo que lhes havia sido imposto ou até mesmo o desejo real de gestores que, por mais ligados a um governo ditatorial que estivessem, ainda assim poderiam ser sensíveis e interessados no desenvolvimento artístico do ente federativo que governavam.

Se compreender a motivação dos governadores para a atividade teatral capixaba durante o período da Ditadura Militar não é tarefa das mais fáceis, implicando em pesquisa mais aprofundada, não o é perceber a importância do Estado como agente fomentador do desenvolvimento cultural. Sem negar que ainda há muito no que avançarmos, é indiscutível que os editais culturais lançados pelo poder público do Espírito Santo nos últimos anos vem contribuindo consideravelmente para a afirmação dessa nova fase de nosso teatro. Cabe à população não permitir que as políticas culturais desenvolvidas por um Estado democrático deixem à desejar àquelas desenvolvidas por um regime ditatorial.

Duílio Kuster

* Publicado originalmente na seção “Opinião”  no jornal “A Gazeta” de 19\12\2013

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