Folgazões 10 anos: caras novas, oficinas, espetáculos e muito mais.

“Uma década de alguns acertos

e de infinitos erros

tropeços

em inesquecíveis caminhadas

lágrimas

em incontáveis despedidas

um período de imensa teimosia

na fantasia

de resistir enquanto trupe teatral

na utopia

da criação coletiva

e da sobrevivência artística

numa ilha”.

(por Duílio Kuster)

 

Em 2017, continuando sua trajetória de 10 anos fazendo do teatro sua paixão, arte e ofício, a Folgazões se abre mais uma vez e convida talentos para compor o elenco de seus espetáculos. Damos aqui, mais uma vez, as boas vindas aos profissionais Marina Malafaia e João Garcia que estão em “O Pastelão e a Torta” e Lorena Lima que participará de “A Lenda do Reino Partido”. Todos eles tem trabalhos desenvolvidos fora da Folgazões: Marina atualmente cursa teatro na FAFI e participa de montagens com o Grupo Vira-Lata; João faz parte do elenco do Comédia A La Carte e se apresenta em eventos como comediante; e Lorena lidera o Grupo Beta de Teatro e ministra oficinas.

João Garcia e Marina Malafaia: sangue novo no elenco do “Pastelão”, em repertório há 7 anos.

Para movimentar ainda mais nossa sala de ensaio, serão oferecidas oficinas teatrais. Além da continuidade da parceria com a Secretaria de Cultura da UFES realizando o Curso Livre de Teatro da UFES, a Folgazões divulgará seu calendário para aqueles que querem iniciar ou se aperfeiçoar na arte da interpretação, tanto para teatro quanto para cinema e TV. Para os que querem se preparar para falar em público ou para a câmera, será oferecido treinamento personalizado. Neste caso, é só entrar em contato para obter mais informações.

Uma novidade que extrapola nossas fronteiras artísticas será o concurso para estudantes de arquitetura. O objetivo é desenvolver um projeto de adequação arquitetônica para a sede, visando melhores condições para a pesquisa e produção artística, apresentações e recepção do público no espaço.

Foca Magalhães, Lorena Lima e Duílio Kuster.
Foca Magalhães, Lorena Lima e Duílio Kuster compõem o elenco de “A Lenda do Reino Partido”, que estreia este ano.

Também como parte das comemorações, a companhia estreará no segundo semestre seu novo espetáculo, “A Lenda do Reino Partido”, com dramaturgia de Duílio Kuster. Este projeto foi premiado pelo Edital de Seleção de Projetos Culturais para Produção de Espetáculos Inéditos de Artes Cênicas, da Secretaria de Cultura do Espírito Santo (SECULT-ES). Para os interessados nas artes cênicas, a companhia usará suas redes sociais para compartilhar um pouco do que acontecerá no seu processo de montagem.

Um novo campo que também será trabalhado é o de teatro educativo, focado em conteúdo histórico, científico ou para treinamento profissional. Para isso, serão selecionados novos atores para compor elenco desses projetos.

Para quem quer trabalhar em funções técnicas, está aberto cadastro para interessados em estagiar ou trabalhar com produção, além de fornecedores profissionais nas áreas de cenografia, figurino e adereços, iluminação, som e imagem. Só mandar e-mail para producaofolgazoes@gmail.com com descrição de atividade, portfólio e contatos.

Outro projeto há muito desejado e que sairá do forno é o de seleção de grupos ou artistas independentes, de teatro, dança ou música, que gostariam de se apresentar na Sede da Folgazões, no Centro Histórico de Vitória. Desta forma, a companhia fortalece seu compromisso de popularização das artes, dando oportunidade aos artistas para mostrar seu trabalho.

Como podem ver, teremos um ano de comemoração recheado de atividades e, cada vez mais, buscando integração com os artistas e a comunidade.

Dá-lhe Folgazões!

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Duilio Kuster fala sobre o teatro capixaba na TV Assembléia

Duílio Kuster é autor do livro “Revolução de Caranguejos”: o teatro no Espírito Santo durante a ditadura militar”, resultado da pesquisa desenvolvida no mestrado em história. O pesquisador faz parte da Folgazões Companhia de Artes Cênicas.

Cineclube Ação e Reflexão exibe “Pra frente Brasil”

Neste sábado (2 de junho), às 18h, será exibido na Folgazões o longa brasileiro “Pra frente Brasil” do diretor Roberto Farias.

A história se passa no Brasil de 1970. O país inteiro torce e vibra com a seleção de futebol na Copa do Mundo de Futebol no México, enquanto prisioneiros políticos são torturados nos porões da ditadura militar e inocentes são vítimas desta violência. Reginaldo Faria vive Jofre, pacato cidadão que divide casualmente um táxi com um militante de esquerda. A partir de então, ele é confundido com um ativista político e é preso e torturado por agentes federais durante a euforia do milagre econômico brasileiro e da Copa do Mundo de 70. Todos estes acontecimentos são vistos pela ótica de uma família quando um dos seus integrantes, um pacato trabalhador da classe média, é confundido com um ativista político e “desaparece”.

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A Folgazões Artes Cênicas, o dramaturgo Wilson Coêlho, diretor do Grupo Tarahumaras se uniram ao Cine Clube Cidade Alta para oferecer uma programação de exibições de filmes durante todo o ano de 2016.

As seleção dos filmes foi pensada levando em consideração a atual conjuntura política brasileira. Cada encontro promove além das exibições, um espaço aberto às reflexões e ao debate.

As exibições acontecem no primeiro sábado de cada mês, sempre às 18h, na sede da Folgazões Artes Cênicas, que fica na Rua Nestor Gomes, 168, Centro de Vitória – link Google Maps: https://goo.gl/maps/FFLBHqjLoyp

Desafios em Cena – artigo sobre o livro “Revolução de Caranguejos – o teatro no Espírito Santo durante a ditadura militar”

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Artigo publicado no Jornal A Gazeta/C2 Pensar, em 30/4/2016.

Por Duilio Kuster, ator, historiador e autor do livro “Revolução de Caranguejos – o teatro no Espírito Santo durante a ditadura militar”.

De 1964 a 1969, o movimento teatral capixaba andava enfraquecido. Não existiam cursos de formação. Um dos poucos espaços de apresentação disponível, o teatro Carlos Gomes, estava abandonado. Havia poucos grupos em atividade, como o Praça Oito, formado por Gerson Von Randow e Glecy Coutinho, entre outros, e o Equipe, fundado por Paulo Torre. O grupo Geração foi fundado em 1966 por Toninho Neves e Milson Henriques e destacou-se não só pela crítica presente em seus textos – as duas primeiras peças foram proibidas pela Censura – como por terem criado um teatro de arena no que tinha sido o refeitório do Hotel Majestic. Além desses três grupos, ocorreram iniciativas isoladas. Em 1969, com o fim do Geração, Milson Henriques montou com os alunos da Faculdade de Engenharia o espetáculo Vitória, de setembro a Setembrino, tendo sido proibido pela censura após a oitava apresentação.

Na década de 1970, o teatro local ganhou um grande impulso graças, principalmente, à criação da Fundação Cultural do Espírito Santo (FCES), instituição responsável por programar e executar a política cultural estabelecida pelo Governo do Estado e que gozava de autonomia administrativa e financeira. Uma de suas primeiras ações foi a reforma e reinauguração do Teatro Carlos Gomes. Em seguida, a instituição passou a desenvolver uma série de ações, entre as quais são dignas de menção: a contratação de espetáculos do Rio de Janeiro e São Paulo para se apresentarem no estado; a criação de um concurso dramatúrgico; a realização do I Festival Capixaba de Teatro Amador, organizado por Milson Henriques; a concessão de verbas para as montagens teatrais; a oferta de um curso de orientação dramática, que mais tarde daria origem a um grupo de teatro da Fundação e a criação de novos espaços de apresentação, como o Teatro Estúdio e o Circo da Cultura.

Se por um lado o teatro ganhou um grande impulso, no que tange à liberdade de expressão os artistas teatrais capixabas passaram a sofrer com a ação da Censura Federal. O texto do espetáculo Ensaio Geral, por exemplo, cujo elenco era formado por Luiz Tadeu Teixeira, Amylton de Almeida e Milson Henriques foi proibido pouco antes da data prevista para sua estreia. A equipe optou por manter o espetáculo apenas com música e expressão corporal, mas, mesmo assim, no dia do ensaio geral para a Censura, a apresentação foi novamente proibida. Os artistas resolveram levar a empreitada adiante e acabaram tendo que ir à Polícia Federal prestar depoimentos. Além de episódios como este, os artistas locais deveriam seguir um procedimento padrão com relação à Censura. Todos deveriam ser cadastrados na Polícia Federal. Os textos dos espetáculos eram enviados para Brasília e poderiam obter liberação total, parcial ou interdição. Deveria ocorrer um ensaio geral para os censores que acompanhavam se a equipe estava respeitando os trechos cortados. Os censores poderiam aparecer nos espetáculos para verificarem se a peça correspondia ao que foi apresentado no ensaio. Se os artistas insistissem em se apresentar, eles deveriam pagar multas e, caso a infração se repetisse por três vezes, poderiam ser detidos.

Já no final da década 1970, observamos uma situação paradoxal. O movimento teatral capixaba havia alcançado um considerável nível de desenvolvimento, com o surgimento de novos grupos teatrais. Estes, foram impulsionados não só pelas ações que vinham sendo desenvolvidas pela FCES, mas também pelas Mostras de Teatro da UFES, nas quais, além das apresentações, havia também a preocupação em se discutir os rumos do movimento teatral local e pela criação da Federação Capixaba de Teatro Amador (FECATA). Esta foi responsável por propiciar uma série de cursos, seminários e encontros teatrais, além de estimular o registro jurídico e filiação dos grupos capixabas. Dentre as suas principais ações, destacou-se a realização dos Primeiro e Segundo Encontros Capixabas de Teatro Amador. Por outro lado, a FCES começou a sofrer uma crise econômica provocada pela redução do repasse de verbas por parte do governo que culminou na sua extinção em 1980. Algumas ações em prol do desenvolvimento da atividade teatral ainda continuaram a ser desenvolvidas, como um prêmio de dramaturgia, um edital para montagens teatrais e alguns seminários sobre a arte teatral. A quantidade e o caráter das ações desenvolvidas no período, entretanto, não se comparam com aquelas executadas de 1970 a 1977.

Com isso, se é possível afirmarmos que de 1970 a 1977 ocorreu no Espírito Santo uma mudança profunda na forma do Estado relacionar-se com a atividade teatral, a partir desse período esse processo não caminhou para frente e, o que é pior, retrocedeu, com a diminuição das ações que vinham sendo desenvolvidas, num momento em que o movimento teatral capixaba principiava a alcançar uma dimensão considerável. Esse descompasso de investimentos talvez explique os rumos tomados pelo teatro capixaba nas décadas seguintes.

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