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Desafios em Cena – artigo sobre o livro “Revolução de Caranguejos – o teatro no Espírito Santo durante a ditadura militar”

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Artigo publicado no Jornal A Gazeta/C2 Pensar, em 30/4/2016.

Por Duilio Kuster, ator, historiador e autor do livro “Revolução de Caranguejos – o teatro no Espírito Santo durante a ditadura militar”.

De 1964 a 1969, o movimento teatral capixaba andava enfraquecido. Não existiam cursos de formação. Um dos poucos espaços de apresentação disponível, o teatro Carlos Gomes, estava abandonado. Havia poucos grupos em atividade, como o Praça Oito, formado por Gerson Von Randow e Glecy Coutinho, entre outros, e o Equipe, fundado por Paulo Torre. O grupo Geração foi fundado em 1966 por Toninho Neves e Milson Henriques e destacou-se não só pela crítica presente em seus textos – as duas primeiras peças foram proibidas pela Censura – como por terem criado um teatro de arena no que tinha sido o refeitório do Hotel Majestic. Além desses três grupos, ocorreram iniciativas isoladas. Em 1969, com o fim do Geração, Milson Henriques montou com os alunos da Faculdade de Engenharia o espetáculo Vitória, de setembro a Setembrino, tendo sido proibido pela censura após a oitava apresentação.

Na década de 1970, o teatro local ganhou um grande impulso graças, principalmente, à criação da Fundação Cultural do Espírito Santo (FCES), instituição responsável por programar e executar a política cultural estabelecida pelo Governo do Estado e que gozava de autonomia administrativa e financeira. Uma de suas primeiras ações foi a reforma e reinauguração do Teatro Carlos Gomes. Em seguida, a instituição passou a desenvolver uma série de ações, entre as quais são dignas de menção: a contratação de espetáculos do Rio de Janeiro e São Paulo para se apresentarem no estado; a criação de um concurso dramatúrgico; a realização do I Festival Capixaba de Teatro Amador, organizado por Milson Henriques; a concessão de verbas para as montagens teatrais; a oferta de um curso de orientação dramática, que mais tarde daria origem a um grupo de teatro da Fundação e a criação de novos espaços de apresentação, como o Teatro Estúdio e o Circo da Cultura.

Se por um lado o teatro ganhou um grande impulso, no que tange à liberdade de expressão os artistas teatrais capixabas passaram a sofrer com a ação da Censura Federal. O texto do espetáculo Ensaio Geral, por exemplo, cujo elenco era formado por Luiz Tadeu Teixeira, Amylton de Almeida e Milson Henriques foi proibido pouco antes da data prevista para sua estreia. A equipe optou por manter o espetáculo apenas com música e expressão corporal, mas, mesmo assim, no dia do ensaio geral para a Censura, a apresentação foi novamente proibida. Os artistas resolveram levar a empreitada adiante e acabaram tendo que ir à Polícia Federal prestar depoimentos. Além de episódios como este, os artistas locais deveriam seguir um procedimento padrão com relação à Censura. Todos deveriam ser cadastrados na Polícia Federal. Os textos dos espetáculos eram enviados para Brasília e poderiam obter liberação total, parcial ou interdição. Deveria ocorrer um ensaio geral para os censores que acompanhavam se a equipe estava respeitando os trechos cortados. Os censores poderiam aparecer nos espetáculos para verificarem se a peça correspondia ao que foi apresentado no ensaio. Se os artistas insistissem em se apresentar, eles deveriam pagar multas e, caso a infração se repetisse por três vezes, poderiam ser detidos.

Já no final da década 1970, observamos uma situação paradoxal. O movimento teatral capixaba havia alcançado um considerável nível de desenvolvimento, com o surgimento de novos grupos teatrais. Estes, foram impulsionados não só pelas ações que vinham sendo desenvolvidas pela FCES, mas também pelas Mostras de Teatro da UFES, nas quais, além das apresentações, havia também a preocupação em se discutir os rumos do movimento teatral local e pela criação da Federação Capixaba de Teatro Amador (FECATA). Esta foi responsável por propiciar uma série de cursos, seminários e encontros teatrais, além de estimular o registro jurídico e filiação dos grupos capixabas. Dentre as suas principais ações, destacou-se a realização dos Primeiro e Segundo Encontros Capixabas de Teatro Amador. Por outro lado, a FCES começou a sofrer uma crise econômica provocada pela redução do repasse de verbas por parte do governo que culminou na sua extinção em 1980. Algumas ações em prol do desenvolvimento da atividade teatral ainda continuaram a ser desenvolvidas, como um prêmio de dramaturgia, um edital para montagens teatrais e alguns seminários sobre a arte teatral. A quantidade e o caráter das ações desenvolvidas no período, entretanto, não se comparam com aquelas executadas de 1970 a 1977.

Com isso, se é possível afirmarmos que de 1970 a 1977 ocorreu no Espírito Santo uma mudança profunda na forma do Estado relacionar-se com a atividade teatral, a partir desse período esse processo não caminhou para frente e, o que é pior, retrocedeu, com a diminuição das ações que vinham sendo desenvolvidas, num momento em que o movimento teatral capixaba principiava a alcançar uma dimensão considerável. Esse descompasso de investimentos talvez explique os rumos tomados pelo teatro capixaba nas décadas seguintes.

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