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O palco do Carlos Gomes recebe “O Outro”

O_Outro_Fest-CidadeemCena2014O Outro, espetáculo da Folgazões dirigido por Chico Pelúcio (Grupo Galpão – MG), se apresenta na segunda (12 de maio) dentro da programação do Festival Cidade em Cena promovido pela Espírito Cultura e Entretenimento.

Produzido inicialmente para espaços alternativos, esta será a primeira vez que se apresenta num palco italiano. Mas a proximidade com os personagens cativantes dessa história não será perdida, para os que querem ver bem de perto, o grupo irá colocar cadeiras no palco para que o público não perca nenhuma nuance da interpretação dos atores Duílio Kuster (Homem) e Foca Magalhães (Lúcifer).

A peça mostra um homem perturbado por seus questionamentos sobre a vida, infeliz diante de sua finitude. Ele trilha um caminho difícil até cruzar com uma figura misteriosa que indica onde encontrar as respostas que procura. A partir desse momento ele se vê num jogo de poder e sedução onde o vencedor e o vencido ganham o que desejam.

A montagem discute a vida humana a partir do mito da existência de Deus e o Diabo. Usando uma linguagem realista, o grupo traz para a cena elementos diferentes dos trabalhados até então. Uma nova estética, mais intimista, e que não bebe das fontes populares, apesar do tema ser popular.

Com tradição em teatro de rua, a Folgazões investe em sua segunda peça para ambientes fechados, um espetáculo para espaços alternativos adaptável para o palco italiano. É uma inquietação do grupo por novos caminhos, por ampliar a experiência de até então. O processo de criação da peça O Outro consistiu de um intercâmbio do grupo capixaba com o ator e diretor Chico Pelúcio, do Grupo Galpão, de Belo Horizonte (MG), uma das mais importantes companhias de teatro do país e uma das mais conhecidas fora do Brasil, como Europa e América do Norte. O diretor, durante diversos encontros, reuniões e ensaios, dirigiu o grupo e compartilhou experiências. “Trouxemos a experiência de 32 anos do Galpão, promovendo este intercâmbio ES-MG, e isso foi muito importante para o crescimento e aprendizado da Folgazões”, comenta Chico.

Esta é a segunda adaptação do conto Lúcifer, da escritora e filósofa mineira, Guiomar de Grammont. O espetáculo é uma produção resultante do Edital de Residência Artística 2013 da Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo.

 

O Outro

Festival Cidade em Cena

Local: Theatro Carlos Gomes

Data: 12 de maio 2014

Hora: 20h

Ingressos: Ingresso.com ou na bilheteria do teatro a partir das 14h. Inteira: R$20; Meia: R$10.

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Artigo – O artista Milson Henriques

 Multi-Milson-Mídia-Henriques:

O artista e a cena cultural capixaba nas décadas de 1960-70.

Duílio Henrique Kuster Cid1

Resumo

Neste artigo, analisarei a vida e obra do artista Milson Henriques (1942 –  ) enfatizando a sua participação no cenário artístico-cultural do Espírito Santo durante as décadas de 60 e 70. Apresentarei um panorama de suas múltiplas atividades desenvolvidas no estado envolvendo setores como teatro, música, jornalismo, desenho e cinema, buscando, também, e a partir de sua biografia, entender outros aspectos do período como a atuação da censura e o papel do Estado no desenvolvimento cultural local.

Palavras-chave: Milson Henriques; Biografia; Espírito Santo.

Abstract

This article looks at the life and work of artist Milson Henriques (1942 -), emphasizing his participation in artistic and cultural scene of Espírito Santo during the 60’s and 70’s. I will present an overview of its multiple activities in the state involving sectors such as theatre, music, journalism, design and film, trying, from his biography, to understand other aspects of the period as the performance of censorship and the state’s role in cultural development site.

Keywords: Milson Henriques; Biography, Espírito Santo.

“(…) eu não sou um bom alguma coisa;

eu sou um pouquinho de cada coisa”.

Milson Henriques (1981:22)

Em julho de 1964, ao mesmo tempo em que os militares assumiam o comando do país, um jovem com 27 anos, de espírito libertário e pouco dinheiro no bolso, fugindo das agruras do conturbado contexto político nacional, aportava em Vitória. Sua intenção era permanecer um curto período, reunir mais recursos e seguir, em exílio voluntário, rumo ao Uruguai. Até então, e desde muito cedo, a sua vida havia sido um constante deslocamento por diversos estados e até países nos quais permanecia o tempo suficiente para programar a próxima mudança.

Ainda com 5 anos, com a família, sai de sua cidade natal, São João da Barra, no estado do Rio de Janeiro e vai residir em Campos. Nove anos depois, no alvorecer do seu décimo quarto aniversário, toma uma atitude drástica: devido a desavenças com o pai, foge de casa e começa um processo de contínuo deslocamento. De Campos, ele se mudará para a capital do Rio de Janeiro e depois, sucessivamente, para Salvador, Belo Horizonte, Brasília, Salvador novamente, Uruguai e finalmente Vitória, objetivando, conforme já exposto acima, retornar ao exterior. O que este artista de talentos múltiplos não poderia imaginar é que o destino lhe reservaria o, então, pacato estado do Espírito Santo como endereço fixo nas suas próximas décadas de vida.

No presente artigo, pretendo apresentar um breve olhar sobre a vida e obra do artista multimídia2 Milson Henriques (1942 – ) concentrando a análise nas décadas de 1960 e 1970, momento em que ele chega e se instala em Vitória. Procurei trabalhar com a noção de biografia coralapresentada por Sabina Loriga (1998:241), pensando o indivíduo como um ser particular e fragmentado3. Desta maneira, segundo a autora, é possível romper com homogeneidades aparentes e revelar os conflitos ligados às práticas culturais.

Assim, tendo em mente esse indivíduo particular e fragmentado, procurarei demonstrar que Milson Henriques é uma figura fundamental para se pensar a cena artístico-cultural capixaba, num período em que ela ainda engatinhava, tendo não só participado das mais variadas áreas artísticas como também, e mais importante, encabeçado uma série de ações culturais.

Ensaio Geral

A percepção de Milson Henriques (2004:2) ao chegar à nova terra representa uma síntese da cidade naquele momento; “A primeira impressão que tive de Vitória, na semana que cheguei, foi péssima: não havia vida noturna de espécie alguma e isso para um notívago como eu é um fato determinante”.

O Espírito Santo, na primeira metade da década de 60, apesar de estar inserido na região sudeste, considerada a mais desenvolvida do país, era basicamente agrário. Somente algumas décadas depois e, principalmente, durante os governos de Christiano Dias Lopes (1967-1971) e Arthur Carlos Gerhardt Santos (1971-1974) é que, a partir de investimentos na industrialização e na produção de bens intermediários, o estado passaria a integrar de forma mais concreta o modelo de desenvolvimento brasileiro, assumindo um aspecto urbano e industrial (Siqueira, 2001: P. 36-44).

Tal atraso, entretanto, acabou favorecendo a permanência de Milson Henriques no estado. O objetivo era conseguir dinheiro para seguir viagem e Milson, que possuía como um de seus maiores dotes artísticos o desenho, descobriu que a capital ainda não possuía uma única agência de publicidade e passou a pintar placas de propaganda na beira da estrada. Não demorou até ser contratado por empreendedores que construíam um edifício no centro da cidade. A ideia era que pintasse numa grande placa a imagem do prédio concluído.

No mesmo período estava sendo inaugurada a Eldorado Publicidade, primeira agência do tipo na capital. O dono da empresa, observando-o desenhar, convidou-o para trabalhar como arte-finalista. Essa foi a porta de entrada para que Milson Henriques penetrasse no meio intelectual e artístico da cidade:

“Em função do trabalho na Eldorado, logo na primeira semana conheci toda a esquerda de Vitória que se reunia no Bar Marrocos, atrás da praça Oito. Era uma “igrejinha” formada pelo Oswaldo Oleari, Toninho Neves, Cláudio Antônio Lachini, gente que me recebeu com o maior carinho”. (Henriques, 2004:2)

Dois anos depois de sua chegada, foi um desses frequentadores do Bar Marrocos quem introduziu Milson Henriques na cena teatral capixaba. Em 1967, Antônio Carlos Neves ou, simplesmente, Toninho Neves, estava de volta à Vitória depois de uma temporada em Brasília onde havia ido estudar cinema. Chegando ao Espírito Santo, decidiu trabalhar com montagens teatrais e fundou o Grupo Geração, do qual seria o diretor dos trabalhos. Até então, ele havia tentado montar dois espetáculos que acabaram abortados pela proibição da censura.

Toninho Neves resolveu encenar o musical Arena Conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieiri e Augusto Boal. O espetáculo, em 1965, havia feito muito sucesso no Teatro de Arena de São Paulo. Para montá-lo, Toninho Neves procurava um ator que pudesse cantar e dançar no palco.

Milson Henriques, que pouco tempo depois de sua chegada já exercitava o canto no coral da catedral de Vitória, foi o ator escolhido. A peça ficou em cartaz durante duas semanas seguidas e, à exemplo do que ocorreu em São Paulo, transformou-se num estrondoso sucesso.

O espetáculo marcou a inauguração do Teatro de Arena do Grupo Geração no que tinha sido o antigo refeitório do Hotel Majestic4. Cumpre ressaltar que, neste momento, o Teatro Carlos Gomes, construído em 1927 e, desde então, o principal palco do teatro capixaba, encontrava-se há anos fechado para reformas5.

Eram poucos os locais de apresentações como, por exemplo, o auditório da Escola Técnica Federal do Espírito Santo. Este, contudo, possuía um grande inconveniente: num período em que a ação da censura tornava-se cada vez maior em todo o território nacional, ele estava localizado ao lado da polícia federal! (Henriques, 2002:111) Coube, portanto, aos grupos teatrais, a iniciativa de criarem espaços independentes como o referido Teatro de Arena.

Logo em seguida e perseguindo o sucesso anterior, Milson Henriques e o Grupo Geração estrearam Juventude de Raiva e Muito Amor, obtendo, também, um bom retorno de público. O espetáculo possuía como temática a juventude e consistia numa colagem preparada por Antônio Carlos Neves, usando textos seus e de outros atores, trechos de filmes, cenas da história do Brasil e do folclore, documentos sobre a juventude, depoimentos e slides.

Paralelamente às montagens teatrais, Milson Henriques e Toninho Neves, nas respectivas funções de ator e diretor, começaram a filmar alguns curtas, em formato 16 mm e em preto e branco, marcando os primeiros passos do cinema capixaba. Até que finalmente conseguissem terminar Alto a La Agressión!, o primeiro deles, foram muitos os percalços.

Numa das ocasiões emblemáticas, que revela uma população ainda não familiarizada com a sétima arte, os dois estavam rodando uma cena na Rua Sete, na época, a mais badalada da cidade. À medida que montavam o equipamento começou a juntar cada vez mais gente que encarava tudo como uma grande festa. Falavam alto, faziam piadas… até que um mais afoito jogou um pedaço de papelão na cabeça de Milson, interrompendo de vez as filmagens (Henriques, 2007:2).

Em outra tentativa, eles haviam escolhido, como cenário, a escadaria da igreja de Santa Isabel, na tranquila cidade de Domingos Martins. Milson Henriques, como um jagunço de rifle em punho, deveria atirar no padre, representado por um outro ator que, ferido, rolaria escada abaixo. Após algumas quedas que não agradaram o diretor, a filmagem foi interrompida por uma senhora beata que gritava descontroladamente:

“Chega de zombar de nossa igreja! Isso é uma blasfêmia! Um bando de moleques. Vieram de Vitória para fazer bagunça aqui, para rir da gente! Chega dessa palhaçada! Para despertar meu Jesus Cristinho só passando por cima do meu cadáver”!(Henriques, 2007:2)

Em pouco tempo, a senhora começou a insuflar a população contra a equipe apavorada e, com isso, mais um projeto de filme foi cancelado. Alguns contratempos depois, finalmente será concluído Alto a La Agression!. Neste, Milson fazia o papel de um estudante engajado na esquerda. O filme alcançou projeção nacional quando chegou à semifinal de um festival nacional de curtas promovido pelo Caderno B do Jornal do Brasil.

Não demorou para que, à medida que outros jovens começavam a produzir os seus curtas-metragens, Milson, revelando ser também um grande produtor cultural, organizasse o I Festival de Cinema Amador Capixaba. De acordo com uma análise  publicada no jornal A Gazeta de 1968:

“Num esforço promocional do nosso Milson, o público capixaba pôde ter uma ideia do que já vem se fazendo em matéria de cinema jovem em Vitória, numa retrospectiva que contou com a participação de todos os filmes amadores capixabas e que marca o impulso da nova geração capixaba preocupada com os problemas do seu mundo, se interessando pela cultura e pela arte, e não passa o tempo todo em festinhas” (Ramalhete, 1968:30).

O evento foi organizado no verão de 1967, no Cine Jandaia, e chegou a ter um público de mais de 200 pessoas. Entre os concorrentes, estavam nomes que já despontavam entre os jovens cineastas capixabas como Paulo Torres, Ramón Alvarado e o já citado Antônio Carlos Neves.

Em meio aos curtas de ficção, destacou-se, por seu conteúdo inusitado, um documentário científico, feito a cores, que mostrava a primeira operação de coração feita no estado. Mais inusitada, porém, foi a presença da moça operada e que viu o filme pela primeira vez. (Henriques, 2007:3)

No ano seguinte, muito provavelmente inspirado pelos I e II Festivais de Música Popular Brasileira, realizados, respectivamente, na extinta TV Excelsior (1965) e na TV Record (1967) e que foram responsáveis por apresentarem ao Brasil jovens músicos como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Geraldo Vandré, entre outros, Milson realizará o I Festival Capixaba de Música Popular Brasileira.

O festival teve uma grande repercussão, chegando até a sua quinta edição no ano de 1972. Milson contou com o patrocínio, nas primeiras edições, do serviço de turismo e, posteriormente, com a Fundação Cultural do Espírito Santo, órgão vinculado ao estado e responsável por um grande incentivo à cena artístico-cultural capixaba na década de 70.

As eliminatórias eram transmitidas ao vivo na TV Vitória, então a única emissora do estado, com a final no Ginásio Wilson Freitas. Entre os jurados, destacou-se, na edição de 1972, a presença da atriz Bety Faria.

A relação de Milson Henriques com a música não se restringiu apenas à organização dos festivais ou à participação no coral da catedral de Vitória. Na década de 70, Milson começou a cantar na noite. Entre os locais de apresentação, destaca-se a Boate Cave, que ficava localizada na avenida Jerônimo Monteiro, no coração da capital.

Nessa boate, além das apresentações costumeiras, Milson realizou um grande show em que se apresentaram grandes nomes da música local, como Tião de Oliveira, filho do consagrado violonista Maurício de Oliveira. O nome não poderia ser mais criativo: O Show que não se Achou!

No final da década de 60, Toninho Neves foi estudar na Europa e o Grupo Geração paralisou as suas atividades. Foi justamente nesse período que Milson iniciará a sua também profícua carreira jornalística escrevendo para o jornal A Gazeta.

Em certa ocasião, na redação, oferecendo-se para ajudar um colega que estava sobrecarregado de trabalho e preocupado em terminar uma página do jornal, Milson escreveu uma coluna satírica chamada de Dondoca Já Se Foi. Ele coletou algumas matérias das páginas policiais e colocou, de forma irônica, nessa coluna. Em pouco tempo, a Dondoca Já Se Foi transformou-se num imenso sucesso, passando a ser editada diariamente.

Logo em seguida, ele foi chamado para trabalhar em A Tribuna, outro jornal do estado. Neste, ganhou um espaço na edição de domingo, na qual desenvolveu uma página inteira de humor e que intitulou Jornaleco. A repercussão foi ótima e Milson passou para o Segundo Caderno, dedicado a eventos culturais.

Milson criou uma seção onde entrevistava artistas, além de fazer críticas de livros, entre outras. Isso, sem falar no consagrado humor que, neste momento, assumia um aspecto mais afiado. Milson passou a lançar deboches e provocações contra o pessoal da ditadura, o que terminou por levar-lhe à prisão nada menos do que doze vezes. (Milson, 2007:3)

Paralelamente à atividade jornalística, Milson, agora sem Toninho Neves e o Grupo Geração, deu seguimento a sua carreira teatral. Além de ator, ele trabalharia em diversas montagens como diretor e dramaturgo, assim como, eventualmente, cenografista e figurinista.

Em 1969, o panorama teatral capixaba andava enfraquecido, com poucas produções em cartaz. Tudo indica que a falta de espaços adequados de apresentação tenha sido um fator preponderante:

“Mesmo com alguns impulsos esporádicos, 1969 foi mais um ano negro para o teatro capixaba. A razão única, segundo aqueles mais ligados à arte cênica capixaba e que ainda têm esperanças de dias melhores, é “a falta de local para que o trabalho de nossos grupos amadores e profissionais que nos visitam possam chegar até o público com o mínimo de condições possíveis”. Desta forma, o auditório da Escola Técnica Federal do Espírito Santo, em Jucutuquara, foi o único palco ativo, com a apresentação de cinco peças o que dá uma média de mais de dois meses para cada temporada” (A Gazeta, 1970:13).

O auditório da Escola Técnica Federal, aquele localizado ao lado da polícia federal, continuava sendo um dos poucos espaços disponíveis para os artistas apresentarem os seus espetáculos.

Foi justamente nele que Milson Henriques estreou e fez temporada da polêmica peça Vitória de Setembro a Setembrino, considerada a grande exceção durante aquele “ano negro”:

“VITÓRIA DE SETEMBRO A SETEMBRINO, de Milson Henriques foi, sem dúvida, o acontecimento teatral de Vitória em 1969. Escrita, representada e dissertando sobre um assunto local (a nossa história, nossos costumes, personagens típicos e vida social) esta peça veio constatar que se pode perfeitamente movimentar com êxito novas experiências no gênero. Apresentada pelos alunos da Escola Politécnica, por ocasião da semana de engenharia, DE SETEMBRO A SETEMBRINO manteve-se com casa cheia por oito apresentações, lembrando os bons tempos do Grupo Geração (ARENA CANTA ZUMBI E JUVENTUDE COM RAIVA E MUITO AMOR, em 1967) para depois ser proibida em todo o país pela censura federal” (A Gazeta, 1970:13).

O espetáculo era uma grande sátira sobre a capital e seus personagens e acontecimentos. Eram abordados diversos fatos entre o mês que a cidade nasceu (setembro) até a gestão de Setembrino Pelissari, prefeito de Vitória quando a peça estreou. Apesar do grande apelo junto ao público, ela encerrou sua temporada devido a uma proibição da censura.

Em 1970, ainda como dramaturgo e diretor, Milson estreia Animais, não Desanimais, peça que falava sobre uma onça prepotente que queria reinar sobre os outros animais e que acaba morta por um homem e devorada por um urubu filósofo! O espetáculo possuía o objetivo de ajudar uma turma de engenharia que precisava de recursos para a sua formatura. A censura desconfiou do texto e, mesmo sendo um espetáculo  infantil, ganhou a classificação de 18 anos, assim sendo apresentada.

No mesmo ano, ele escreveria e participaria de um espetáculo que, segundo Oscar Gama (1981:10), pode ser considerado um marco na produção teatral capixaba tanto por seu aspecto estético, mas também e, sobretudo, pelo seu caráter político.

Ensaio Geral foi escrito por Milson Henriques e pensado, inicialmente, para ser um musical. Ele reunia os principais nomes da música capixaba como Aprygio Lyrio e o conjunto Os Mamíferos. Como atores, o próprio Milson, além de Amylton de Almeida e Luiz Tadeu Teixeira. Rubinho Gomes e Antônio Alaerte assinavam, respectivamente, a direção e a produção do espetáculo.

Seguindo o que já se tornava uma constante na vida artística de Milson, o texto foi vetado pela censura. A produção do espetáculo entrou em desespero, tendo em vista o investimento econômico já realizado, e, após uma longa negociação, conseguiu um acordo com a polícia para fazer a apresentação sem falas, só com mímicas, expressão corporal, slides, efeitos de luz e música.

Durante a única apresentação realizada no já familiar auditório da Escola Técnica, ao som de rocks capixabas e músicas tropicalistas, a polícia federal pôde ver desenrolar-se diante de si o que, nas palavras de Luiz Tadeu Teixeira (2002:79), foi o primeiro happening6 capixaba.

Atores desprovidos de maquiagens ou figurinos ficavam, na maior parte do tempo, conversando e brincando com a plateia. Em outro momento, apareciam numa sucessão de cenas inusitadas como o próprio Milson Henriques que, sem camisa, fazia movimentos com a barriga sem um objetivo aparente (Gama, 1981:112).

Num final apoteótico, todo o público é convidado para subir ao palco e ajudar os artistas a quebrarem o cenário que havia sido construído com materiais como caixas de papelão e isopor. A diversão só acabou quando a polícia também subiu no palco e proibiu de vez o espetáculo. (Gama, 1981:112) Fechando a noite, o produtor e os outros integrantes do elenco tiveram que prestar depoimentos na polícia federal. (Teixeira, 2002:78)

Conforme se pode inferir do que foi apresentado até agora, não foram poucas vezes que Milson teve problemas com a censura federal. Para além das prisões, foram constantes os convites para dar satisfações sobre as suas atividades, isso sem falar nos inúmeros espetáculos e textos teatrais proibidos.

É o próprio Milson quem fornece pistas para uma maior compreensão da atuação da censura no Espírito Santo; tema, aliás, bem pouco pesquisado pela historiografia:

“Eu fui preso uma vez porque eu disse que o vice-presidente tinha nome complicado. Eles não tinham nada para provar contra mim porque eu nunca fui de gueto de partido. (…) Chegava lá era a maior besteira do mundo: “É porque o senhor falou que o vice-presidente tem nome complicado, é falta de respeito”! Essas frescuras foram só para me amedrontar mesmo. O pessoal fala esse negócio de bater, nunca me  bateram, eu não participava de Congresso estudantil, eu não participava da UNE, eu não participava de nada. (…) Eu não queria saber de política, queria gozar a vida, mas eles eram tão imbecis que eles empurravam você pra você ser da esquerda. (…) Por que você ser preso por que dizer que o presidente tinha nome complicado te dava uma raiva tão grande e os caras te humilharem porque eu era hippie, eu era cabeludão né? E eles ficavam “você não tem vergonha, o senhor é um cabeludo, um vagabundo, um hippie, falar mal de um presidente, um homem honrado  e eu tinha que dizer “é, realmente, o senhor tem razão, me desculpe, eu acho que eu me excedi mesmo. (…).” (informação verbal)7

Milson, apesar de não estar vinculado a nenhuma organização político partidária, era visto como “um cabeludo, um vagabundo, um hippie” ou, em outras palavras, um indivíduo que fugia ao modelo de cidadão sonhado pela ditadura.

A repressão contra Milson e sua obra parece relacionar-se com a preocupação de preservar uma certa moral nacional. Nesse sentido, a obra de Milson, marcada por um tipo de humor mais debochado, representava uma ameaça aos pudicos valores ditatoriais:

“Outro problema sério é o da censura. Alguém (O Governo?) precisa convencer ao Chefe da Censura de Brasília que Vitória não é tão provinciana como se pensa lá (o tão aí na frase é muito importante). A nossa sociedade já está mais civilizada e já aceita o seu palavrãozinho, desde que não seja gratuito e dito na hora certa”. (Henriques, 1975:45)

O palavrão, por exemplo, e segundo o que o testemunho de Milson deixa transparecer, era algo inaceitável pela ditadura. É interessante observar o testemunho de Milson que, em plena ditadura militar, preocupa-se em afirmar que apesar de utilizar palavras impróprias em seus espetáculos, ele o faz na hora certa e com determinado objetivo.

Ainda em 1970, Milson Henriques, juntamente com Paulo Torre e Luiz Tadeu Teixeira, fundaram o Grupo Laboratório e inauguraram o Teatro da AEI (Associação Espíritosantense de Imprensa). O espetáculo apresentado foi Mordaça, que reunia o poema Uivo, de Allen Ginsberg e a peça História do Zoológico, de Edward Albee. A peça permaneceu em cartaz durante 27 dias e obteve resultados tão positivos que a Fundação Cultural do Espírito Santo ofereceu, como prêmio para os atores, cursos de teatro no Rio de Janeiro.

Pouco tempo depois, marcando a reinauguração do Teatro Carlos Gomes, Milson Henriques, seguindo o talento de organizador de grandes eventos, organizará o I Festival Capixaba de Teatro Amador, com patrocínio da Fundação Cultural do Espírito Santo e do Banco Comércio e Indústria de Pernambuco.

De acordo com as regras, os candidatos deveriam apresentar textos a uma comissão julgadora que faria a pré-seleção de dez peças. Dessas, seis deveriam ser encenadas pelos próprios autores, durante o período destinado. No caso de a censura proibir alguma peça, tomaria o lugar a próxima na lista de classificadas. Seriam conferidos prêmios em dinheiro à melhor peça, diretor, ator e atriz. Nas palavras do escritor Luiz Carlos Maciel, o festival ecoou por toda a cidade:

“O festival de Vitória foi uma festa bacana porque não se limitou a ser, como geralmente acontece, um fenômeno isolado do resto da vida da cidade. Na realidade, há uma pequena mas curiosa revolução cultural acontecendo lá (…). Evidentemente, os dois dias que passei lá foram insuficientes para avaliá-la. Mas os sinais externos estão nas ruas e no papo das pessoas (…). Outra coisa que me impressionou no Festival foi a energia e a sede de criação demonstradas – na minha  opinião, mais  importantes do que os resultados alcançados” (Maciel, apud Torre, 2002:46).

No mesmo ano, Milson Henriques foi convidado por Marien Calixte, responsável pela área de teatro da Fundação Cultural do Espírito Santo, para ser diretor do recém-criado Grupo de Teatro Amador Carlos Gomes, vinculado àquela instituição. A proposta era a montagem de espetáculos infantis com o objetivo, entre outros, de formar público no estado.

A Fundação comprometia-se a fornecer um salário fixo para Milson como diretor, a custear todas as montagens, além de cachês para os atores nos dias de apresentação, em troca do compromisso da equipe de estrear uma nova produção a cada quatro meses. Para Gama, isso representou uma manifestação pioneira em termos de profissionalização teatral no Espírito Santo. (Gama, 1981:112)

À frente do novo grupo, Milson viria a dirigir – além de, por vezes, assumir as funções de figurinista, cenógrafo e ator – nos próximos três anos, oito montagens teatrais8. Em 1973, ele abandonou a Fundação Cultural e fundou uma companhia também especializada em teatro infantil, onde dirigiria outros três espetáculos9.

Foi quase no mesmo período que, trabalhando como chargista do jornal A Gazeta, Milson criou Marly, uma de suas personagens mais famosas. Marien Calixte, que trabalhava como editor chefe do jornal, havia-lhe pedido que criasse uma figura tipicamente capixaba, solteirona e frustrada, que passava a vida falando mal de quem havia conseguido aquilo que almejava. Nascia, assim, Marly, mulher de meia idade que passava o dia no telefone conversando com sua vizinha Creuzodette (inicialmente chamada de Creuza Odete).

Marly passou a ser publicada diariamente no jornal A Gazeta. Num primeiro momento, ela era quase uma charge, pois estava sempre relacionada a acontecimentos diários. Com o tempo, entretanto, ela tornou-se requisitada por jornais de outros estados como Rio de Janeiro, São Paulo e Amazonas e com isso a assumir um formato de Cartoon.

Seu sucesso foi tanto que, em 10 de fevereiro de 1974, ela ganhou seu primeiro almanaque. Este, contudo, não teve uma vida muito longa: três dias depois de lançado foi recolhido das bancas pela Polícia Federal sem maiores explicações.

Apesar dos percalços, a fama de Marly foi se tornando cada vez maior. No mesmo ano, foi fazer parte das revistas de quadrinhos Patota e Eureka, ao lado de personagens internacionais como Mafalda, Charlie Brown, Hagar, Zé do Boné, Kid Farofa e muitos outros. No ano seguinte, ela migrou para A Tribuna, ganhando uma página semanal, além de fazer parte do suplemento Tribuna Jovem10.

Foi também na década de 70 que Milson começou a sua carreira televisiva na TV Vitória. As transmissões eram ao vivo e em preto e branco. O primeiro e uns dos principais programas chamava-se As Fotos do Fato.

Milson lia crônicas carregadas de ironia sobre os principais acontecimentos da cidade, enquanto fotos do episódio iam sendo mostradas. Num deles, ele elogiava a beleza de Vitória enquanto aparecia a imagem de vários urubus sobre os lixões da capital. Como era de praxe, a censura, mais uma vez, proibiu o programa.

A cena artística capixaba, na segunda metade da década de 70, foi marcada por uma série de espetáculos teatrais em que Milson aparecia com bastante frequência, alternando-se nas funções de diretor, dramaturgo e ator.

Em 1975, estréia, no Teatro Carlos Gomes, Carmélia por Amor, de Milson e Amylton de Almeida, e direção de Milson, com grande sucesso de público. Texto e música giravam em torno da figura de Carmélia, transformada em cronista símbolo da ilha de Vitória. No mesmo ano, com o retorno de Toninho Neves a Vitória, ele toma parte na montagem de O Inspetor Geral, de Gógol, marcando a volta do Grupo Geração. Além desses, também estreou no Teatro Carlos Gomes Um doutor na família, que ele dirigiu e escreveu com alunos da EMESCAM no elenco.

Nos anos seguintes, entre outros, temos: Papai Noel no Bang-Bang, em que assina texto e direção, que estreou no Carlos Gomes em 1976; Chuva de Sorrisos, de Pasqual Lourenço, com sua direção, que representou o estado em um Festival de teatro na Paraíba onde conseguiu o primeiro lugar entre as peças infantis (1977); O gato playboy (1978), de Jay Pinheiro e mais uma vez com sua direção, montada pelo Grupo Ato Ação no Teatro Estúdio e que originaria a primeira novela infantil capixaba, apresentada na TV Espirito Santo e, em 1979, participou como ator da montagem de Você sabe brincar de brincar?, texto seu e direção de José L Gobbi. Cumpre destacar, ainda, que neste ano ele assumiu o cargo de produtor-editor e apresentador do programa Gazetinha, da TV Gazeta.

Considerações finais

A história de Milson Henriques não se encerra aqui, uma vez que no alto dos seus 69 anos, ele continua em plena capacidade criativa. Fiel ao seu estilo multimidiático, segue escrevendo, desenhando e montando espetáculos teatrais, entre outras inúmeras atividades.

De acordo com Levillain (2003:175) a biografia pode captar a realidade de um contexto social a partir do concreto de uma vida. Assim, a análise biográfica de Milson no período aqui proposto (1964-1979), tendo em vista a sua ligação a múltiplas atividades no período – principalmente envolvendo a arte e o jornalismo – lança luz sobre um momento fundamental na história do Espírito Santo. Observa-se a transição de um estado eminentemente agrário para outro, urbano e industrial. Ocorre, com isso e acompanhando o cenário nacional, o surgimento de vários movimentos culturais ligados à cidade – escritores, jovens cineastas, grupos de teatro e bandas musicais, entre outros – e que aparecem de forma mais efetiva para a população a partir de grandes eventos, como os festivais artísticos.

Nesse sentido, é interessante observar a participação do Estado enquanto agente fomentador de desenvolvimento artístico-cultural, principalmente com a criação da Fundação Cultural do Espírito Santo, no final da década de 60. Entre outras ações, destaco a reforma do Teatro Carlos Gomes, a criação de um grupo teatral profissional vinculado a este mesmo teatro e o patrocínio dos festivais de música e teatro.

Tal incentivo estatal, por mais paradoxal que seja, ocorreu num dos momentos de maior cerceamento das liberdades individuais na história do país, uma vez que praticamente tudo deveria passar pelo crivo da censura federal, órgão de controle da ditadura militar.

Por fim, segundo Jonaedson Carino (1999:154), nunca se biografa em vão, mas sim com finalidades precisas: “exaltar, criticar, demolir, descobrir, renegar, apologizar, reabilitar, santificar, dessacralizar”. Essas finalidades e intenções fazem com que retratar experiências singulares transforme-se, intencionalmente ou não, numa pedagogia do exemplo, cuja força educativa é inegável.

Dessa forma, e tendo em mente que vivemos num contexto no qual os indivíduos são levados por um sistema socioeconômico altamente competitivo a tornarem-se cada vez mais especializados, sob risco de serem esmagados pelo mercado, fica aqui a “pedagogia do exemplo” de um artista que tem buscado, em sua trajetória, não ser um “bom qualquer coisa”, mas “um pouquinho de cada coisa”.

Referências

Fontes

HENRIQUES, Milson. Celebridade capixaba? Autêntica e multitalentosa! 2004. Entrevista concedida a Jeanne Bilich. Disponível em: <http://www.seculodiario.com/arquivo/2004/marco/06_07/entrevista/entrevista/06_03_01.asp>. Acesso em 5 maio 2011.

HENRIQUES, Milson. Geração 60 e o movimento do cinema amador. In: OSÓRIO, Carla (org.) Catálogo de filmes: 81 anos de cinema no Espírito Santo. Vitória: ABD&C – ES, 2007.

HENRIQUES, Milson. Sou de esquerda. Espírito Santo Agora, Vitória, ano XI, n. 63, p. 22-23, dez. 1981.

HENRIQUES, Milson. Prisões ditadura. 2010. Entrevista concedida a Gabrielle Tallon. Disponível em áudio em: <http://soundcloud.com/gabitallon/prisoes_ditadura>. Acesso em 10 maio 2011.

HENRIQUES, Milson. Humorista que preza é assim: só ri quando dói. A Tribuna, Vitória, p. 45, 23 nov. 1975.

RAMALHETE, J. C. Cinema 67. A Gazeta, Vitória, p. 30, 21 jan. 1968.

TEATRO…cadê? A Gazeta, p. 13, Vitória, 1 jan. 1970.

Revelação nacional do teatro infantil neste fim de semana em Vitória

Este fim semana. O musical “Felizardo”, com o grupo paulista Banda Mirim, é atração sexta, às 16h, e sábado, às 15h, no Teatro Carlos Gomes.Imagem

Grata revelação da cena infantil dos últimos anos, a Banda Mirim tem dez integrantes, entre atores, músicos, cantores e artistas circenses. Cheios de energia, os participantes do grupo desenvolvem diversos projetos paralelos.

O texto e a direção da produção, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Artes, ficam a cargo de Marcelo Romagnoli. Executadas ao vivo, as boas músicas da trilha sonora (rock, forró, reggae e outros gêneros) têm autoria de Tata Fernandes — algumas em parceria com Zeca Baleiro e Nô Stopa. Na trama, as imaginativas crianças Aurora (a atriz Cláudia Missura) e Felizardo (o cantor Rubi) embarcam num dia de brincadeira. Elas empinam pipa, dão de cara com a mula sem cabeça e o saci, fogem do banho e contagiam crianças e adultos na plateia.

ImagemTeatro Carlos Gomes: Praça Costa Pereira, 25, Centro, Vitória. 
Ingressos: entrada franca.
Informações: (27) 3323-0476.